Artigo de opinião de José Belo, do Chega.
«As tragédias da noite de Lisboa e um outro dia em Vagos, não são apenas acidentes, em locais marcados por um destino fatal.
São marcos de uma rutura mais profunda e mais silenciosa, uma fratura que não se limita às manchetes dos jornais, mas que revela a forma como as famílias se desfazem, como com os novos tempos deixaram de ensinar e os seus gestos e práticas deixaram de criar proteção para os filhos.
Quando o “sangue” corre dentro da família, não é apenas o afeto que se desfaz ou o altar da convivência que se profana, é o ato de cuidar que se cala, o fio da transmissão entre gerações que se rompe.
Estes episódios não são monstruosidades isoladas. São sintomas de uma doença dita civilizacional que se instalou com método e paciência, sob o disfarce de progresso e com o selo de legitimidade cultural.
A desagregação da família foi uma engenharia cultural Woke, promovida por correntes que, sob mando da esquerda radical, decidiram reescrever os fundamentos da família, substituindo o vivido pelo fabricado, o concreto pelo abstrato e o cuidado pela teoria.
Durante dezenas de anos, a doutrina Woke moldou consciências, redesenhou valores, desfigurou instituições e minou a autoridade legítima que sustentava a maturidade, a proteção e a ordem.
Em nome dessa emancipação, aboliram-se os limites que formavam o caráter. E sobre o pretexto do progresso, promoveu-se a destruição sistemática das estruturas morais que garantiam a coesão dentro da família.
O que antigamente se transmitia no silêncio do corredor, no olhar firme à mesa, num “não”, foi dissolvido por uma pedagogia que hesita, valida e abandona.
A palavra perdeu densidade, a relação perdeu forma e o lar deixou de ser o espaço de iniciação, para se tornar no palco de experiências sem estrutura e sem regras.
A sabedoria prática da vida familiar desvaneceu-se em teorias desconectadas da realidade e a ética concreta feita da autoridade e cuidado paterno e materno e do respeito, foi substituída por um edifício de desconfiança, relativismo e permissividade.
O Lar que no passado formava o caráter e transmitia valores, tornou-se num laboratório de impulsos.
O cuidado foi entregue a técnicos, a responsabilidade substituída por uma infância sem fim, marcada por vitimização e ausência de limites.
Esta crise familiar, transformou-se em crise política, cultural e espiritual.
É preciso afirmar isso com clareza. Sem família forte não há Nação livre, não há cultura viva e não há futuro possível.
A ideologia Woke, sinónimo de políticas de esquerda, levou a que a máquina esquerdista, utópica e radical, não se limitasse a desmantelar as Instituições. Foram mais fundo, transformaram o amor na família em ferramenta ideológica, apagaram as distinções entre pais e filhos, adultos e jovens.
Ao nivelar tudo sob pretexto da igualdade emocional, destruíram os pilares de formação do caráter e da transmissão da cultura. Fabricaram uma moral superficial onde a decência foi substituída pelo exibicionismo e a responsabilidade por bordões. Instalaram um sistema de direitos automáticos, exigências sem esforço, facilitismo e liberdade sem forma.
O resultado está à vista nestas tristes tragédias que vão acontecendo, que sugerem alianças frágeis, presenças instáveis e famílias esvaziadas de sentido e regra.
Os jovens em vez de serem educados por pais exigentes, tornam-se residentes de um Estado terapêutico que promete acolhimento infinito, mas dá o abandono disfarçado.
A mesma ideologia que dissolveu o Lar, promoveu uma pedagogia de excitação contínua. Uma psicologia de estímulo sem forma, onde a atenção é fragmentada, os afetos inflacionados e o tempo gerido e dominado por impulsos.
O pulsar do ecrã foi elevado à condição de tutor silencioso que, ensina os gestos antes da ideia, a exibição antes do pudor e a cópia antes do juízo.
O jovem adolescente, elevado a entidade autónoma, privado de exigência e do respeito pelas regras, imita o que brilha e pulsa e quando o brilho é vazio, o caráter dissolve-se, o risco iminente está presente e o “trágico acidente” acontece.
O que deveria ser mediado e comandado por adultos presentes (família), é agora mediado por algoritmos que recompensam o ruído, a velocidade, a exposição, o risco e o desejo de imitação e colagem.
O produto final de tudo isto é uma geração hiper estimulada, emocionalmente exausta, incapaz de “esperar” por um desejo, de suportar a frustração, de ouvir um “não” e de reconhecer uma hierarquia que o protegia, mas também o dirigia.
Para contrariar e reverter esta depravação, o caminho é assumir cada um as suas responsabilidades. Essa reversão começa na mais pequena célula social/cultural, a família, no seu mais íntimo funcionamento. Uma luz acesa sobre a mesa representada por bons exemplos, boas práticas, um “não” dito cedo, na hora certa, explicado e mantido. O silêncio atento que ensina a escutar, a ver e a agir, uma promessa que se cumpre mesmo quando ninguém vê.
Estes gestos, estas práticas são “Escola Civilizacional”. São as bases invisíveis que sustentam a liberdade verdadeira, aquela que não se confunde com impulso, mas que se constrói com escolha, com contenção e com ações corretas e coerentes. É com eles que o desejo aprende a esperar, que a palavra readquire densidade e valor, e que a liberdade volta a ter margens, limites e direção.
Neste esgotamento moral em que vivemos, nesta anestesia forçada que nos impuseram, deseja-se e, é urgente uma viragem. Porque a liberdade sem regras e respeito é apenas ruído e o ruído não constrói a verdadeira Civilização.»

