Tomé Pinto: “Cinema sem público. Público sem cinema”

Artigo de opinião de Tomé Pinto, do Bloco de Esquerda.

«Há uns dias pudemos ler nos jornais a notícia sobre o fecho das salas de cinema comercial na cidade de Viana do Castelo. Ao que parece, este fecho já estava pendente há uns tempos, e agora finalmente se concretizou, apesar da tentativa da Câmara Municipal de Viana do Castelo de assegurar o funcionamento de parte das salas.

É estranho pensar numa cidade sem salas de cinema comercial. Mais estranho ainda pensar numa cidade capital de distrito sem salas de cinema comercial, com tudo o que isso implica – pipocas e bilhetes inflacionados. Infelizmente, o fecho deste tipo de salas por todo o país tem vindo a ser cada vez mais comum, mas felizmente as associações (como a AO NORTE), as bibliotecas, cineteatros, e outros recantos, têm vindo a colmatar a falta de oferta cinematográfica com programação recorrente e alternativa.

As reais questões que se colocam são: não estará o cinema a falhar como negócio? Qual a relevância da experiência cinematográfica, numa época em que facilmente conseguimos ver filmes à hora que queremos, ao ritmo que queremos, no conforto das nossas casas, pagando o que seria metade do preço de um bilhete por um mês de subscrição?

Ora, à primeira questão respondemos, facilmente, sim. A arte sempre teve muita dificuldade em entrar na lógica da oferta e da procura e, quando tenta, falha como negócio. Porque a fruição cultural não foi feita para ser cómoda, fácil, confortável, como estamos habituados a que todos os objetos de consumo o sejam. Ir ao cinema é mais do que ver um filme. É quase um ritual – deslocarmo-nos para uma sala escura, a uma determinada hora, para ver um filme num ecrã gigante, com um monte de desconhecidos. Hoje em dia podemos dizer que é quase uma extravagância. Que praticamente não faz sentido, não é útil, e há maneiras mais baratas de nos entretermos.

Se calhar, e respondendo à segunda pergunta, podemos dizer que a experiência cinematográfica no grande ecrã, morreu. Em termos de números, morreu. Em termos de negócio e lucro, morreu. Em termos de oferta cultural e artística, também morreu? Infelizmente sim, porque como o mercado move tudo, se uma coisa não se encaixa na lógica de mercado, perde automaticamente valor.

O que proponho, como um bom ingénuo (ou utópico): Cinema como serviço público. Independentemente de apenas uma pessoa ir ao cinema de seis em seis meses, os filmes deveriam passar, deveria ser um serviço público disponível para a população. Porque o entretenimento, se continuar a ser tratado como um luxo secundário, acabará por desaparecer aos poucos, sem ninguém se queixar, até darmos por nós a vivermos em autênticos dormitórios periféricos, e a termos de nos deslocar quilómetros para poder ver um filme de super-heróis enquanto comemos pipocas.»

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