Artigo de opinião de Catarina Lêdo, do PSD.
«Vivemos rodeados de câmaras, microfones, gravações, diretos e stories nas mais variadas plataformas digitais. A partilha tornou-se num reality show onde cada um pode ser, ao mesmo tempo, produtor, realizador e protagonista. Cada um, mas não todos. Porque, curiosamente, há um pequeno poço civilizacional que quer contrariar a tendência do momento: as Assembleias Municipais que não se querem inscrever no programa televisivo.
E, em pleno século XXI, enquanto se discute a tutela de personalidade da criança e a responsabilidade parental na divulgação da imagem dos seus filhos nas redes sociais, há municípios que não querem levantar a mínima discussão que seja parecida com aquela, talvez, responsabilidade. Acredito que não seja por falta de tecnologia…
Parabenizo os municípios que transmitem as Assembleias Municipais em direto, pois é sempre bom ver o Big Brother democrático, em que posso assistir às discussões, às moções, aos votos, às trocas acesas de argumentos (e, porque não, às pequenas vaidades políticas).
Outros, porém, preferem dizer que “não há meios técnicos”, “é complicado”, “há questões de imagem”, “as pessoas podiam interpretar mal o que veem”. Eu usaria o mesmo discurso se não me apetecesse falar mais sobre o assunto. Ou então, claro, se quisesse passar a ideia que o cidadão comum não quer ser chateado com essas questões. Não pudesse ele ter a escolha de, simplesmente, fazer scroll (uma “passagem à frente”) do vídeo de transmissão da Assembleia e seguir o seu dia sem ter perdido um segundo…
Mas, provavelmente, será melhor protegê-lo de ver os seus representantes mostrar em que não sabemos para onde vai a política, em que os interesses próprios são levados ao extremo e as decisões e vontades do cidadão são relegadas para segundo plano.
Quanto mais se fala de transparência, mais ela parece opaca. Talvez seja o medo de terem telespectadores.
Afastando um pouco a ironia, a verdade é que uma Assembleia Municipal sem transmissão representa uma limitação no exercício pleno da transparência democrática, pois embora exista e funcione, permanece afastada. Vivemos nos tempos em que praticamente todos os conteúdos estão disponíveis em formato digital e acessíveis a qualquer momento, desde debates políticos a sessões parlamentares nacionais, e por isso, continua a ser difícil compreender decisões contrárias.
É precisamente nestas reuniões que se discutem e decidem matérias que influenciam de forma concreta o quotidiano das pessoas como a gestão dos resíduos, a habitação, a fiscalidade local, a educação, os transportes, entre tantas outras. No entanto, muitos munícipes continuam dependentes de informações indiretas, artigos no jornal ou da publicação da ata para saber o que foi debatido e decidido.
Talvez um dia possamos assistir, em direto, à democracia que acreditamos que corre das nossas assembleias, mas até lá, continuaremos neste paradigma de um Big Brother sem câmaras pautado por uma transparência de olhos fechados numa casa pública, mas modo privado.»

