André Caetano: “Os Santos”

Artigo de opinião de André Caetano, advogado em Viana do Castelo.

«Em primeiro lugar, o Fernando, que deu o Euro 2016 ao povo, não é?

A forma como a religião e a cultura se misturam, em 2026, continua a ser um fenómeno interessante de analisar. Hoje, nem me apraz falar dos políticos que instrumentalizam a falta de instrução e a fé em deus para aumentar o nicho.

Tive oportunidade de viver os santos populares de uma forma mais presente, este ano, quer pelo belo trabalho feito pela comissão de festas de Darque, que juntou a comunidade para o S. António, quer por uma fugaz escapada em Lisboa, onde fui a Benfica e não vi o Eusébio. Mas são mesmo os santos que nos puxam? É que eu vi muito poucas imagens alusivas aos mesmos, principalmente em Lisboa, mas também podia ser uma noção meio “imperial”, que um gajo nem sempre está fino.

O branding vem com os santos, as atividades já têm mais que ver com a eterna batalha Super Bock vs Sagres.

Eu nem sei qual é a imagem do S. João, mas sei que há que puxar de martelo e pegar fogo ao monte e algumas prioridades com um grande balãozinho de night. O Santo António tem a criança ao colo, pelo que se pressupõe uma maior disciplina na atuação, porque temos que ser responsáveis quando somos baby sitters. Quando era pequeno, no bairro dos pescadores vivíamos o S. Pedro com intensidade, fazíamos a procissão vestidos de pescadores a pedir dinheiro pelas ruas (deve ser por este que aquele senhor que está algumas vezes abeira do quiosque da praça tem a senhora de Fátima com ele), em nome de quem? Do S. Pedro? Eu era miúdo, queria era divertir-me com o pessoal. Atualmente, quanto a santos, não vai mudando muito, ainda por cima o Neymar já jogou, e tudo.

Na verdade, isto até nem é sátira porque, sendo crente ou não, a fé respeita-se, até traçar a linha nos extremos. Isto sou eu, dentro de um autocarro a procurar perceber qual o objeto da veneração: se o santo, se a festa. Seja qual for, haja alegria, haja energia, haja noção, educação, diversidade e inclusão, e meia dúzia de sardinhas.

Gostava de ter tido oportunidade de aprofundar este assunto com a minha avó Fátima, porque acho que a sua geração seria a única que ainda iria venerando o santo e fazendo parte da festa. Porquê? Porque cresceu assim, a rogar a deus e às “aurminhas” para ter uma cevadinha e um trigo, e quando não tens nada e te apresentam a vida como proveniente de entidades superiores, quem sou eu para julgar?

Mas pronto, para o ano vou Santos aos santos e procura perceber melhor o que vai na cabeça do povo, para além das luzes chamativas.»

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