Artigo de opinião de André Caetano, advogado em Viana do Castelo.
«Hoje escrevo sobre a minha tia favorita.
No mundo da tecnologia onde todos vivemos reféns de um ecrã, é importante lembrar e relembrar que é esta tia que nos vai preservando a humanidade. Nem toda a gente merece a sua presença, mas esta não deixa de ser fundamental em todo e qualquer momento das nossas vidas e, quando se perde, que tudo se faça para a encontrar. Quantas vezes a distância nos dissocia dos problemas do mundo, quantas vezes somos capazes de ver brotar emoções com um filme e em simultâneo ignorar a humanidade de um morador de rua?
Quantas vezes as nossas profissões nos fazem colocar num patamar superior àquele a que realmente pertencemos? A empatia nunca empatou ninguém, pelo contrário, será sempre uma vitória, mesmo em dias de derrota. A vida, a justiça, o karma, os deuses – seja qual for a crença de cada um – que se encarreguem de servir o seu de cada um, sem interferir com aquilo que deve ser o básico da nossa interação, aquilo que nos vai singularizando enquanto espécie. Quantas crises e problemas seriam facilmente resolvidas se houvesse um pouco mais de empatia no mundo? Por vezes, um mero sorriso pode mudar o dia de alguém, um mínimo gesto que por norma se tende a ignorar, que a robotização da rotina nos retira da retina enquanto esta nos retém em si.
Apraz-me escrever sobre isto porque cada vez mais me deparo com o desaparecimento da empatia que, paralelamente às abelhas, sofre com a modernização e as antenas do 5G. É engraçado que aquilo que nos conecta na verdade vai-nos separando cada vez mais e, repare-se, eu próprio estou a passar esta msg que escrevi numa cave, por via da internet, em vez de sair e sorrir!
Não vemos empatia naqueles que nos representam, naqueles que nos comandam, por vezes, nem naqueles que nos rodeiam e, grão a grão, o papo da galinha vai ficando cheio de nada.
Ter empatia não se traduz em estar sempre bem, aliás, por vezes são aqueles que pior se encontram que dispensam um pouco do seu tempo para um pequeno gesto, uma palavra, um sorriso, porque sabem a falta que isso lhes fazia, a si. A inteligência emocional, a par e tantos outros assuntos relacionados com a mente, é criminalmente desvalorizada pela generalidade da população e, se nós adultos que nascemos quer na pré ou no decorrer do boom tecnológico não tomarmos a decisão de cultivar esta emoção, o que será do futuro daqueles que nasceram com todo uma nova realidade à sua disposição? Pensemos e trabalhemos nisso, seja com terapia ou mera reflexão, sejamos bons ou simplesmente de bem, para não nos sentirmos bem longe.»

