Rita GT junta filigrana portuguesa e Cantadeiras do Vale do Neiva em projeto artístico no Brasil

Rita GT, artista natural do Porto, mas a residir e a trabalhar na capital do Alto Minho, vai realizar, no Brasil, uma residência artística intitulada “O Círculo das Contas de Ouro em Filigrana – Conexões Históricas entre Bahia e Viana do Castelo”, com o apoio da DGArtes.

O projeto, selecionado para uma residência artística pelo Instituto Sacatar, situado na ilha de Itaparica, tem como mote a tradição da filigrana do Minho e a sua relação histórica com as joias das crioulas da Bahia, no Brasil, e culminará com uma performance inédita, com a participação das Cantadeiras do Vale do Neiva, em janeiro de 2026.

Segundo a artista, o propósito é “refletir sobre o lugar da mulher na construção das narrativas históricas e culturais que unem os dois países, atravessando temas como o (pós) colonialismo, a oralidade e a persistência de formas de expressão feminina ao longo dos tempos“.

Residente em Viana do Castelo, Rita GT propõe-se a investigar não apenas a influência das técnicas e estética de filigrana na joalharia afro-brasileira, mas sobretudo o poder simbólico destas peças, tradicionalmente usadas por mulheres, brancas, no caso do ‘ouro de Viana’, e negras, no das joias de crioula, como expressão de fé, identidade, autonomia e estatuto.

Como a artista sublinha, trata-se de uma “relação pouco explorada e raramente conhecida, que atravessou o Atlântico desde o período colonial até aos nossos dias“.

A filigrana minhota, com a sua delicadeza e complexidade técnica, encontrou ecos na joalharia crioula, visível, por exemplo, em fios e contas ocadas. O resultado é um património híbrido, que persiste até hoje como testemunho de resistência feminina e memória partilhada“, explica.

Durante a residência, que se inicia em novembro e se prolonga até janeiro do próximo ano, Rita GT desenvolverá o núcleo conceptual e performativo da obra. O trabalho vai combinar pesquisa histórica e etnográfica com ensaios, gravações e experimentações visuais, terminando com uma apresentação ao vivo, que vai unir um grupo de mulheres baianas e as Cantadeiras do Vale do Neiva, grupo polifónico que é Património Cultural Imaterial português.

Não é só um espetáculo, é um tributo às mulheres que vieram antes de nós, às nossas mães e ancestrais, mas também uma forma de projetar Viana do Castelo e o canto popular português no mundo“, considera Rita GT.

Além da Direção-Geral das Artes (DGArtes), o projeto reúne os apoios do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, da Embaixada de Portugal no Brasil, da Câmara de Viana do Castelo, da VianaFestas e do Turismo do Porto e Norte, além de outros parceiros privados.

Até 11 de novembro, está também em curso uma campanha de crowdfunding que visa reunir 5 mil euros para ajudar com os custos inerentes à deslocação e estadia das 20 Cantadeiras do Vale do Neiva na Bahia, para participar nesta performance.

Após a estreia, no Brasil, o plano passa por “recriar a obra em Portugal, envolvendo mulheres da diáspora baiana residentes no país“, revela a artista.

Seguir-se-á a realização de um documentário e a criação de um arquivo digital, assegurando “a preservação e acessibilidade pública do processo“.

Nascida no Porto, em 1980, onde se licenciou em Belas Artes, Rita GT vive e trabalha em Viana do Castelo.

Integra a Coleção de Arte Contemporânea do Estado Português (CACE) e é cofundadora do coletivo e.studio, em Luanda. Nas suas obras, tem vindo a refletir sobre os temas de identidade e memória colonial, com foco em questões de género e direitos humanos.

Trabalha principalmente com cerâmica, instalação, performance, vídeo e fotografia, cruzando múltiplos meios e suportes.

Foi comissária do Pavilhão de Angola na 56.ª Bienal de Veneza, em 2015, e, em 2017, fez parte da exposição anual da RoyalAcademy de Londres.

Foi igualmente uma das artistas não africanas, e a única portuguesa, convidada a participar na primeira Bienal de Lagos, na Nigéria.

Em 2021, a obra “Unearthing”, dedicada a mulheres migrantes, foi comissionada pelo museu britânico Yorkshire SculpturePark (YSP).

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