O eleitorado “TikTok”

Artigo de opinião de Diogo Amorim.

Costumava dizer-se que os jovens eram o futuro. Hoje, são mais propriamente o feed. E como todo o feed, deslizam: para cima, para baixo e, sobretudo, para fora das urnas. Entre duas eleições que aí vêm, presidenciais e autárquicas, convém lembrar que existe em Portugal uma geração de eleitores que, quando muito, vota com o polegar… e mesmo assim só se a coreografia couber em 15 segundos.

Chama-se “eleitorado TikTok” e não é difícil de identificar: não lê programas eleitorais, mas reconhece de imediato o algoritmo; não segue partidos, mas segue influenciadores; não se entusiasma com campanhas de rua, mas pode dar meio milhão de visualizações a um candidato se ele aparecer a dançar numa trend. O problema é que meio milhão de views não equivale a meio milhão de votos, embora alguns candidatos pareçam acreditar no contrário.

Surpresa nas eleições legislativas: a abstenção caiu para 35,62%, a mais baixa dos últimos 30 anos. O TikToker parou por uns minutos, e foi votar. Mas o que revela isso sobre esta geração que vive em “trends” e duelos?

Este eleitorado TikToker, os jovens que trocam o boletim por vídeos, percebe intuitivamente o algoritmo, segue influenciadores em vez de programas eleitorais e encolhe os ombros perante tempos de antena. Só que desta vez correram para a urna. Mas votaram em quem? A leitura é clara: os soundbites emocionais e o storytelling visual falaram forte.

Sondagens mostram que entre os 18–24 anos, o Chega recolheu cerca de 25%, o PSD/CDS chegou aos 29% e o PS andou pelos 12%. Nos 25–34, o Chega subiu para 31%, com o PSD/CDS a manter-se nos 28–29%; o PS ficou-se pelos 10–11% Wikipedia. São números que mostram: não foi só voto por impulso, foi voto por estímulo, sobretudo visual e rápido.

Esta geração quer mais que propostas: quer ser seduzida em 15 segundos. Um “like” ou um dueto emocional pode valer mais do que horas de discurso político.

Alguns partidos já perceberam o risco e criam uma conta oficial no TikTok. É uma jogada corajosa, mas arriscada: a linha que separa “aproximar-se da juventude” de ser considerado cringe mede-se em milissegundos de scroll. Ver ministros/deputado a tentar fazer vídeos informais pode ser pedagógico… ou apenas material para mais um meme. De qualquer forma, é um sinal dos tempos: já não basta colar cartazes na rua, é preciso caber num telemóvel.

Então, o que fazer com um eleitorado que não tem sede de vencer mas também não quer gastar tempo? Talvez seja aceitar que a democracia precisa de aprender a dançar conforme a música da plataforma. Porque se não o fizer, arrisca-se a transformar-se num daqueles vídeos que se vê, se ri, se partilha… e depois se esquece.

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