Artigo de opinião de Marta Von Fridden, da Iniciativa Liberal.
«Depois de um início de ano turbulento, com inúmeros defensores da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional a levantarem a voz perante a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, assistimos agora a mais um acontecimento marcante, desta vez no Irão.
A ignição da revolta nasce do esgotamento de um povo sufocado por uma crise económica profunda e pela opressão, imposta por um regime islâmico que apenas tem produzido pobreza, medo e destruição num país herdeiro da grandeza do antigo Império Persa.
Para todos os que sonham com um Irão livre, para quem acompanha a luta de milhares de jovens que desejam viver sem condicionamentos religiosos, a luta das mulheres que exigem autonomia sobre as suas próprias vidas e a luta de um povo que se recusa a aceitar que a palavra “Deus” seja sinónimo de repressão, as primeiras imagens vindas do Irão foram um sopro de esperança.
Não era apenas mais uma onda de protestos. Não era como em 2017, motivada sobretudo pela crise económica. Não era como em 2019, após o aumento do preço dos combustíveis. Nem sequer como após a morte brutal de Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade por alegada violação das regras de vestuário.
Era algo diferente. Era um grito existencial por liberdade.
Mas os moralistas — aqueles que no início do ano batiam com a mão no peito a exigir condenações contra os Estados Unidos da América — perante o massacre no Irão escolheram o silêncio.
Os números que chegam são chocantes. Para quem defende, com convicção, os Direitos Humanos, é impossível ver aquelas imagens sem sentir revolta, impotência e vergonha perante uma Comunidade Internacional que se mostra quase muda e indiferente. Mais grave ainda quando vemos representantes políticos europeus, como Catarina Martins, a optarem pela abstenção num voto de condenação ao regime teocrático do Irão.
Perante isto, a conclusão impõe-se: uma parte da esquerda portuguesa parece odiar mais o mundo ocidental do que amar a liberdade. Para eles, a “integridade territorial” vale mais do que a vida, a dignidade e o direito à felicidade de milhares de pessoas.
Apesar da censura e do blackout das telecomunicações, estima-se que possam ter morrido dezenas de milhares de iranianos, muitos abatidos pela Guarda Revolucionária, encurralados em becos e executados sem possibilidade de fuga.
Mas a hipocrisia não termina aí.
Também nas Nações Unidas se normaliza o inaceitável. Países como o Irão ou o Qatar sentam-se no Conselho dos Direitos Humanos como se fossem exemplos de virtude. Se a cobardia tivesse uma imagem, seria a fotografia dessa mesa onde regimes não democráticos, violadores sistemáticos de direitos fundamentais, são tratados como parceiros morais.
Esta lavagem institucional de regimes que governam pelo terror, pela humilhação e pela violência, mascarando tudo com “moralidade” religiosa, deveria envergonhar-nos. E deveria também exigir respostas claras ao Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.
Mas não foi só o Bloco de Esquerda. Também o Livre protagonizou um momento confrangedor na Assembleia da República. Um partido que se diz progressista preferiu diabolizar Trump em vez de assumir algo simples: quando estão em causa os valores mais altos — a vida, a liberdade, a dignidade humana — não há fronteiras que justifiquem a indiferença.
Para o Livre, a liberdade universal parece não existir. Confunde-se — convenientemente — a Venezuela com a Gronelândia, misturam-se conceitos, ignoram-se contextos e fica claro que o sofrimento de milhões sob regimes opressores lhes é secundário.
A máscara cai quando se baralham conceitos para fugir às responsabilidades. E não, as cores que surgem não são verdes como o Livre gosta de erguer, mas sim vermelhas — a cor do sangue que tantos regimes comunistas fizeram correr.
Perante a sociedade torna-se clara a diferença: há quem entenda que a Liberdade e os Direitos Humanos não têm fronteiras. Que são universais. E que também deve ser universal a nossa missão de apoiar quem pede para ser ouvido, quem pede para ser libertado do seu carrasco.
Porque quando um povo grita por liberdade, o silêncio só pode significar cumplicidade.»

