Artigo de opinião de Gonçalo Pereira, do Livre.
Todos os partidos com assento parlamentar – e candidatos à Câmara Municipal de Viana do Castelo – foram convidados para participar nesta rubrica.
Nota: Quando este artigo foi escrito, os autocarros TuViana ainda não tinham chegado todos a Viana do Castelo, mas, por determinação do sorteio, acordada com todos os partidos, a sua publicação ficou agendada apenas para esta sexta-feira, 26 de setembro.
«Eu vi a Ana… desta vez à espera de um autocarro.
Não daqueles antigos, barulhentos e com cheiro a gasóleo entranhado nos estofos — não, era um dos “novos” alugados. Novos entre aspas, claro: se fossem realmente novos talvez não tossissem tanto nas subidas. Mas lá estavam, a cumprir a sua missão temporária, enquanto os prometidos veículos elétricos públicos continuam a não chegar a Viana do Castelo.
A Ana, que já tinha tentado a bicicleta (lembram-se? Foi quase um desporto radical), decidiu experimentar a outra alternativa “ecológica” que a cidade oferece. Só que há um detalhe: estes autocarros não são da cidade, são alugados. Uma solução transitória, dizem. Como se a transição para uma mobilidade mais sustentável pudesse ser feita com recurso a frotas que chegam, ficam uns meses, consomem gasóleo, partem — e deixam o problema por resolver.
Há uma certa ironia nisto tudo. A cidade que se quer amiga do ambiente, do pedestre e do ciclista continua a remar contra a maré da coerência. O discurso é bonito — fala-se de neutralidade carbónica, de mobilidade suave, de futuro verde. Mas depois olha-se para o quotidiano: vê-se a Ana à espera de um autocarro a gasóleo, enquanto a ciclovia ao lado termina abruptamente numa rotunda sem saída para bicicletas.
A Ana suspira. O autocarro chega — atrasado, claro. Entra, paga e segue viagem.
E os veículos elétricos? Dizem que vêm aí. Há promessas, anúncios, datas provisórias. Vão ser modernos, silenciosos, não poluentes. Vão ter Wi-Fi, ar condicionado e, quem sabe, até espaço para transportar bicicletas. Só que entre a promessa e a paragem de autocarro vai uma distância que não se mede em quilómetros, mas em meses… e em custos. Afinal, quanto vai custar o aluguer de 10 autocarros? 309 mil euros? 344,44 mil euros? Ou será que o custo se mede em 315,65 euros por dia e por veículo? E ainda há os 5,1 milhões anunciados para a aquisição dos 15 autocarros elétricos. As contas confundem e a espera continua.
Entretanto, vamos alugando. Alugamos autocarros, alugamos paciência, alugamos a esperança de que um dia será melhor. E a Ana, que só queria uma forma digna e limpa de se mover pela cidade, continua entre duas opções: pedalar num campo minado de placas de bronze e postes ou viajar num autocarro emprestado que faz mais barulho do que progresso.
Não é por falta de ideias. O que falta é coragem política, investimento sério e visão estratégica. Mobilidade sustentável não é pintar umas ciclovias ou colar autocolantes verdes nos vidros: é decidir de forma estruturante e melhorar, de facto, a vida das pessoas.
Por agora, eu vi a Ana… a descer do autocarro com a mesma expressão de quem atravessou a cidade numa máquina do tempo — só que para trás.
Nessa mesma travessia, a Ana chegou à passadeira. Um carro travou em cima da linha branca, outro passou ao lado sem sequer abrandar. Um terceiro condutor fez sinal para ela avançar, mas a mota atrás dele decidiu não esperar. A Ana recuou. E ali ficou, como quem espera uma pausa no caos — ou um milagre.
Tudo isto numa cidade que se quer moderna, verde, amiga do ambiente. Mas que continua a falhar no mais básico: proteger quem anda a pé.
E assim voltamos ao início: à Ana, à bicicleta, ao passeio, ao autocarro, ao trânsito e às promessas. A cidade parece andar aos soluços, com soluções temporárias para problemas permanentes. E, no meio disto, quem quer viver de forma mais sustentável — a pé ou de bicicleta — acaba por ser o elo mais fraco.
Talvez amanhã, quem sabe, eu volte a ver a Ana. De bicicleta, de autocarro, a pé… ou simplesmente parada, à espera que Viana finalmente arranque.»

