Artigo de opinião de Gonçalo Pereira, do Livre.
Todos os partidos com assento parlamentar – e candidatos à Câmara Municipal de Viana do Castelo – foram convidados para participar nesta rubrica.
Nota: Artigo escrito antes do início da construção do novo mercado municipal, que aconteceu no dia 29 de setembro, mas, por determinação do sorteio, acordada com todos os partidos, a sua publicação ficou agendada apenas para esta quarta-feira, 8 de outubro.
«Eu vi a Ana… à procura do mercado municipal. Mas não o encontrou. Encontrou, sim, um taipal, um buraco e um silêncio constrangedor — daqueles que normalmente antecedem desculpas oficiais com palavras como “adjudicação”, “empreitada” ou “imprevistos técnicos”.
A Ana pedalou até lá cheia de esperança, cesta pronta, lista de compras na cabeça e boa disposição. Já sonhava com maçãs do Gerês, peixe da lota, couves frescas para a sopa e um queijo da serra.
Mas não. Nada de mercado. Nada de bancas. Só o mesmo vazio, a mesma promessa de sempre — agora com um cartaz novo (porque os antigos já estavam a descascar).
E ali ficou, em frente ao esqueleto da cidade, a pensar: “Será que o Prédio Coutinho estava a tapar isto tudo?” Sim, o Prédio Coutinho. Aquele que foi demolido mais depressa do que o mercado foi construído — e olhem que o Coutinho deu luta. O prédio, esse ícone de Viana, caiu. O mercado, esse símbolo de tradição e centralidade, ficou por erguer. Ironias urbanas.
O antigo mercado foi abaixo em 2019. Prometeram uma coisa bonita, moderna, funcional, com hortelã biológica e cafés de especialidade com nomes em inglês. Em 2025, continuamos a ver terra batida e a ouvir o eco do eterno “é para breve”.
Agora, diz-se — com alguma solenidade eleitoral — que as obras vão finalmente começar a 29 de Setembro de 2025, precisamente no local onde antes existia o Prédio Coutinho.
O projeto foi revisto, aprovado e, depois de 15 anos à espera da desconstrução do edifício anterior, parece que o taipal vai mesmo dar lugar a um mercado.
Fala-se num investimento de 13,376 milhões de euros, com autorização do Tribunal de Contas e tudo feito segundo a legislação de contratação pública. O novo mercado pretende revitalizar o centro, substituir o espaço antigo por uma infraestrutura moderna, funcional e — claro — cheia de boas intenções.
Confuso com as datas? Aqui vai o resumo cronológico deste épico urbano:
• 2000 – Decide-se demolir o Prédio Coutinho, no âmbito do Programa Polis. O século começava com promessas.
• 2019 – Inicia-se, finalmente, a demolição física do edifício. O Coutinho resistiu quase tanto como o próprio mercado tarda.
• 2022 – Conclui-se a demolição e tenta-se, sem grande sucesso, adjudicar a construção do novo mercado.
• 2025 – Está previsto o início das obras do novo mercado municipal… 25 anos depois da primeira decisão.
Faz lembrar o interminável projeto do novo aeroporto noutra capital de distrito — onde também se espera há décadas por um “arranque”.
A Ana suspirou. Ainda pensou em ir ao centro comercial, mas desistiu. Não queria comprar tomate com código de barras. Queria ouvir a Dona Arlete a discutir o preço do pimento com o senhor Américo, queria o cheiro a coentros no ar, queria escorregar ligeiramente no chão molhado da peixaria e sentir-se viva.
Em vez disso, contemplou os tapais.
“Se isto fosse o Prédio Coutinho, já cá não estava”, murmurou.
Mas era o mercado — e o mercado parece ter sido entregue ao mesmo destino da bicicleta pública, do autocarro eléctrico e da mobilidade suave: promessas em PowerPoint, com transições animadas, mas sem transição na vida real.
Dizem que falta só “mais um empurrão”. O problema é que ninguém parece querer empurrar — e, quando empurram, empurram para 2026. Ou para as próximas eleições.
A Ana voltou para casa com a cesta vazia, o capacete de lado e a paciência a roçar o prazo de validade.
Mas antes, olhou para o buraco onde o mercado devia estar e pensou: “Será que, se chamarem a este espaço ‘Prédio Coutinho 2’, a obra anda mais depressa?”
Nota final: Nas eleições autárquicas de 2025 em Viana do Castelo, o partido Livre — enquanto voz da esquerda progressista, ecologista e defensora da liberdade — não apresentou candidatura própria. Face a essa ausência e perante a realidade política local, acredito ser essencial garantir uma alternativa consistente, clara e verdadeiramente comprometida com a cidade. É por isso que expresso o meu apoio à candidatura encabeçada por Carlos da Torre.»

