Artigo de opinião de Gonçalo Pereira, do Livre.
«Eu Vi a Ana… à procura de casa em Viana do Castelo. Não para investir, não para especular, não para transformar num alojamento local com nome em inglês — apenas para viver. Um T2 modesto, perto do rio, talvez com varanda para apanhar sol. Ingénua, a Ana.
Abriu os sites: 1.608 euros por metro quadrado. “Está em conta”, disse-lhe o agente imobiliário. “É o preço do mercado”. A Ana riu-se: “Se calhar é o mercado municipal… mas
aquele que ainda não existe, porque este preço é de ficção científica”.
Desistiu da compra e virou-se para o arrendamento. Grande ideia. Encontrou T1’s de 70 m² por 665 euros por mês — sem garagem, sem aquecimento e com vizinhos que têm a televisão mais alta do que a rádio no carro. Tudo isto num concelho onde as rendas subiram mais de 16% num só ano. Um recorde digno de medalha olímpica, mas sem pódio para os inquilinos.
A Ana suspirou: “Será que em vez de fiador preciso de um mecenas?”
Andou, comparou, fez contas. No fim, percebeu que o seu ordenado — aquele mesmo que já não chega para comer uma bolinha do Natário por mês — não acompanha o entusiasmo dos preços. Comprar é luxo, arrendar é sobrevivência, e morar com os pais aos 35 já não é vergonha, é estratégia financeira.
E tudo isto em Viana do Castelo, a cidade que se quer “amiga das pessoas”. Só que ser amigo custa caro.
Eu vi a Ana… a imaginar anúncios honestos, do género:
• “T2 em Viana, preço acessível: só 1 rim na entrada e prestações até à eternidade.”
• “Arrende já: oferecemos o primeiro mês de ansiedade grátis.”
• “Casa com vista para o rio: pena não ter vista para a carteira.”
A Ana fechou o computador. “Talvez mais vale montar uma tenda junto ao mercado
municipal. Sempre é central e, pelo ritmo da obra, espaço não falta”.
E eu vi a Ana… a pensar que, afinal, o helicóptero que sonhava usar em vez da bicicleta
talvez tenha de servir também de casa.»

