Artigo de opinião de Gonçalo Pereira, do Livre.
Todos os partidos com assento parlamentar – e candidatos à Câmara Municipal de Viana do Castelo – foram convidados para participar nesta rubrica.
«Eu Vi a Ana… a andar de bicicleta. Parecia simples, mas não foi. Em Viana do Castelo, andar de bicicleta é quase um exercício de paciência e improviso. As ciclovias, que deveriam ligar a cidade de ponta a ponta de forma segura e contínua, são uma verdadeira manta de retalhos: começam largas, depois encolhem, mudam de lado sem aviso, acabam contra um passeio (lancil) ou atiram-nos para a estrada no meio dos carros.
A Ana, que só queria pedalar junto ao rio, viu-se obrigada a parar mais vezes do que pedalou. Entre a ausência de sinalização, passagens improvisados e buracos que mais parecem armadilhas, a viagem transforma-se num percurso de obstáculos. E tudo isto numa cidade que tanto se orgulha da sua frente ribeirinha e do convite à mobilidade suave.
A questão é: como promover uma cidade amiga das bicicletas, se o ciclista nunca sabe onde a ciclovia começa e onde acaba? Será que queremos mesmo incentivar quem troca o carro pela bicicleta, ou apenas pintar uns metros de cor no chão e espalhar placas de bronze – não sei se é bronze, mas parece -, com o símbolo de uma bicicleta, discretas mas certamente muito caras, para dizer que sim, temos ciclovias?
A Ana chegou ao destino – mas com a sensação de que pedalou num quebra-cabeças urbano. E eu vi a Ana… a perguntar-se se vale a pena repetir.
Eu vi a Ana a imaginar como seria se houvesse bicicletas grátis para todos.
Não bicicletas ‘à borla’, porque são velhas ou pesam tanto como um carro de bois, mas sim bicicletas decentes, leves e com cestinho para as compras no mercado municipal – mas isso já é outra conversa, a do mercado. Imagina chegar à estação, pegar numa bike limpa e afinada, e pedalar pela cidade como se fosse Amesterdão… só que com mais vento e bolas do Natário à mistura.
Claro que isto implicaria pensar em ciclovias a sério, e não em placas de bronze no passeio que acabam contra um poste da EDP. Mas pronto, vamos sonhar: bicicletas grátis, seguros incluídos e até pontos de carga para as elétricas. No fundo, ‘Netflix da pedalada’: pagas uma vez (ou nada!) e andas o que quiseres. Fica a ideia para este projeto: Bikana (bike+bacana).
E, já agora, porque não estender o conceito? Transporte ecológico e neutro em CO2 podia ser sexy se fosse bem promovido. Imagina campanhas do género:
• “Troca o carro pela bicicleta: perdes pneu mas ganhas pernas.”
• “Menos gasolina, mais pastelaria: pedala até ao café e a francesinha não conta como calorias.”
• “Anda de bicicleta hoje para não teres de correr para o autocarro amanhã.”
Se houvesse investimento e vontade, a Ana não seria vista como uma corajosa sobrevivente das ciclovias de Viana do Castelo, mas como parte de uma multidão feliz, a pedalar sem medo, sem fumo e sem gastar um cêntimo em gasolina.
Mas, por enquanto, eu vi a Ana… a estacionar a bicicleta e a pensar que talvez o helicóptero ainda seja a opção mais ecológica.»

