Cláudia Marinho: “Democracia é Respeito”

Artigo de opinião de Cláudia Marinho, da CDU.

Todos os partidos com assento parlamentar – e candidatos à Câmara Municipal de Viana do Castelo – foram convidados para participar nesta rubrica.

«Nada me perturba tanto quanto a distância entre palavras bonitas e ações reais. Fala-se de solidariedade, justiça social, participação… e, na prática, quase tudo fica por cumprir. É impossível não sentir revolta diante dessa hipocrisia, dessa facilidade em transformar valores sérios em meros adornos.

Estar ao serviço das pessoas não é um papel ocasional. É um compromisso diário, nos gestos pequenos e nas lutas maiores, não pela visibilidade, mas porque faz sentido…

Dedicar-me às causas sociais e cívicas nunca foi uma estratégia ou um título, mas a forma que encontrei de viver com coerência, mesmo que nem sempre seja o caminho mais fácil.

Se houvesse mais verdade, mesmo que dura, o mundo seria mais simples e justo. A sinceridade não precisa ser perfeita, basta ser autêntica. Já a hipocrisia, por mais polida que seja, deixa sempre um vazio: é uma sombra disfarçada de luz, uma máscara que cedo ou tarde cai.

Fala-se da falta de mulheres na política, da igualdade e da representatividade. Mas, quando uma mulher ocupa o seu espaço, enfrenta desconfiança e crítica. Até entre mulheres, muitas vezes, se reproduz esse olhar de desvalorização. Em vez de reconhecimento, surgem barreiras, em vez de solidariedade, críticas fáceis. Parece existir um “lugar permitido” e quem o ultrapassa enfrenta condenação.

A política continua marcada por dogmas que dão mais peso a nomes e conveniências do que à capacidade e ao trabalho real. A dedicação de quem já deu provas é esquecida, o mérito apagado, porque o sistema prefere velhas fórmulas. A mudança só será verdadeira quando olharmos para as pessoas pelo que fazem, pela coragem, competência e entrega e não pelo género, pelo apelido ou pelo alinhamento com conveniências antigas.

Até lá, continuaremos a ouvir belas palavras sobre igualdade, enquanto a prática permanece incoerente. Mas há outro desafio silencioso: a forma como olhamos e tratamos os outros.

De pouco serve falar em justiça social se, ao mesmo tempo, alimentamos intolerância em gestos do quotidiano. Não basta erguer bandeiras de igualdade sem respeitar a diferença, sem escutar o que é distinto do nosso pensamento, sem reconhecer a dignidade de cada pessoa.

A verdadeira mudança não nasce apenas de programas, mas da coragem de praticar a tolerância essa capacidade de aceitar que o outro pode pensar e viver de forma diferente, e ainda assim merecer o mesmo respeito.

Como alerta o filósofo Byung-Chul Han em Infocracia, “a democracia só é possível quando há a disposição de ouvir o outro; sem escuta e respeito, ela degrada-se em mera aparência”.

Respeitar não é concordar sempre, é admitir que ninguém deve ser diminuído pela sua condição, escolhas ou lugar na sociedade.

Vivemos tempos em que é fácil falar mais alto, julgar rápido, rotular em segundos. Mas a política e a vida em comunidade só ganham sentido quando se constroem na escuta paciente, no reconhecimento mútuo, no cuidado com as palavras e os gestos. A justiça não floresce onde a intolerância se instala, e a solidariedade não cresce onde falta empatia.

Mais do que denunciar incoerências, importa cultivar o exemplo: ser coerente não apenas nas grandes causas, mas também no respeito quotidiano pelo outro.

A mudança que se exige ao sistema também se exige a nós, na forma como tratamos quem nos rodeia, na disposição para ouvir antes de condenar, na coragem de valorizar sem inveja e de apoiar sem reservas. Só assim, entre vozes e silêncios, poderemos transformar não apenas a política, mas também a convivência humana, tornando-a mais justa, verdadeira e, acima de tudo, respeitosa.»

Compartilhar

Inscreva-se na nossa newsletter

Newsletter
spot_imgspot_img

Popular

Relacionados

Vianense joga cartada importante na luta pela LIGA 3

Dia muito importante na luta pela subida de divisão.

Este domingo há Festa da Criança em Vila Franca

Depois da Festa das Rosas, realiza-se a Festa da Criança.

Futebol: AD Chafé sagra-se campeã da II Divisão Distrital

"Uma conquista fruto de muito trabalho, união e ambição ao longo de toda a época", reagiu a Junta de Freguesia em comunicado.

Viana do Castelo reforça meios operacionais de proteção da floresta contra incêndios rurais

Os equipamentos vão ser utilizados pelas Equipas de Sapadores Florestais no âmbito das suas missões de prevenção, vigilância e apoio ao combate aos incêndios rurais.