Artigo de opinião de Carlos da Torre, do Bloco de Esquerda.
«O mundo globalizado está a viver um período de grandes avanços tecnológicos, com mudanças muito mais rápidas do que aquelas que se viveram a partir do final do século dezanove com a revolução industrial.
No início da industrialização, as máquinas a vapor e as fábricas criaram um aumento extraordinário da capacidade produtiva das sociedades. Mas esse progresso tecnológico não se traduziu em melhoria das condições de vida das pessoas de um modo geral. Pelo contrário. Os trabalhadores urbanos, os operários, passaram a viver ainda pior. Com um tratamento desumano, em jornadas de trabalho no mínimo de 12 horas, que em muitos casos chegavam a atingir as 16h diárias. Salários baixíssimos, que mal davam para manter as pessoas vivas. Opressão e repressão no dia a dia de trabalho. Uma escravidão infame.
E as melhorias só aconteceram porque as pessoas se organizaram no mundo do trabalho, social e politicamente, durante décadas. Criaram sindicatos fortes. Protestaram. Reivindicaram. Fizeram greves. Exigiram. Pressionaram e influenciaram a política para que a legislação laboral humanizasse as condições de trabalho. Com reduções do horário de trabalho, para uma carga de ocupação mais razoável para todos. Com salários mínimos obrigatórios para exigir um mínimo de responsabilidade humana ao empregador.
Nada disto foi obtido sem confronto, sem a coragem de muitos e sem um esforço social e politicamente assumido por muitas gerações antes de nós aqui chegarmos.
O mundo em mudança de que agora nos falam, que nos dizem estar a pedir alterações às leis do trabalho, é real. Está aí! Estamos perante uma nova revolução tecnológica com um imenso impacto na economia, nas sociedades e nas nossas vidas.
Em relação a isso, temos de facto que nos preocupar! E fazer alguma coisa! Mas para nos protegermos, não para facilitarmos o caminho dos gananciosos sem escrúpulos.
Sabemos muito bem a história da industrialização, de como gerou riqueza no passado e o modo como alimentou fortunas colossais e impérios de uns poucos, que acumularam essa riqueza com a mesma naturalidade de sempre. Como uma dádiva divina! Tem sido sempre assim, o progresso tecnológico sem uma distribuição humanamente responsável a acentuar desigualdades e a trazer à evidência a marca cruel de todas as injustiças sociais.
Os actuais avanços tecnológicos aumentam muito a produtividade, permitem produzir muito mais com menos esforço. Vão ser necessárias cada vez menos horas de trabalho por parte de cada um de nós. Os ganhos de produtividade por via da tecnologia não têm que continuar a ser completamente capturados por empresas e acionistas, em vez de darem lugar a melhores salários e condições de trabalho. Melhor vida para todos!
O que faz sentido neste momento é praticamente tudo ao contrário do que o governo quer impor ao país com o famigerado Pacote Laboral. São os trabalhadores quem precisa de medidas que coloquem o progresso ao serviço de todos, que os protejam da instabilidade, que garantam humanidade nas relações de trabalho, que tragam apoio para quem mais necessite dele, que diminuam as desigualdades.
Não precisamos de um quadro legal que nos configure na condição redutora de recursos “humanos” para uma economia desumanizada. Descartáveis! Sem vida própria para além da função instrumental de enriquecimento alheio.
Estamos fartos de ver este filme! Temos que lhe mudar o fim!
Temos obrigação histórica de não permitir a concretização deste PACOTE LABORAL que despreza as nossas vidas para beneficiar os mesmos de sempre!»

