Artigo de opinião de Carlos da Torre, do Bloco de Esquerda.
Todos os partidos com assento parlamentar – e candidatos à Câmara Municipal de Viana do Castelo – foram convidados para participar nesta rubrica.
«Recentemente, um amigo, um bom amigo, em reacção expressa de modo privado a uma publicação minha nas redes sociais, disse-me em tom cru e muito claro o que pensava daquele meu momento, da quase insensatez daquilo que eu, enquanto candidato, estava ali a declarar prioritário.
Estava eu a sustentar nessa publicação, e defendo isso absolutamente convicto, a necessidade de “um projeto coletivo participado para Viana do Castelo, com mais justiça social, amigo do ambiente, com identidade e memória. E para nos podermos reinventar a partir do que fomos e do que somos, a cultura tem que estar na base deste projeto. Um caminho novo, que envolva na sua plenitude os mais jovens, que proporcione qualidade de vida aos mais velhos, que não deixe ninguém para trás. Este caminho tem que potenciar o desenvolvimento sem dar espaço à selvajaria da ganância de um crescimento sem preocupações sociais, ambientais e culturais.”
O meu amigo começa por dizer que gostou do que eu disse. Que lhe parecia equilibrado. Mas… Havia um “mas” muito frontal! “Mas, a cultura não dá votos, Carlos! Serve apenas para encher o ego do candidato!” Esta parte da vaidade tomo-a como provocação benigna.
Não vou ser juiz em causa própria nesse detalhe tão subjectivo e, quero acreditar, provavelmente tão inócuo. Já a questão de a cultura não dar votos é assunto de outro calibre.
Aqui cabe uma primeira consideração política sobre “votos” que qualquer candidatura eleitoral quer por definição, embora nem todas as candidaturas estejam dispostas a tornar esse objectivo, à partida, legítimo e saudável, em critério sobreposto e capaz de subverter a autenticidade do seu projecto e da sua leitura da realidade. Para que ir a votos não seja apenas um processo de legitimação política sem compromissos sérios e sem princípios, é fundamental comunicar-se aos eleitores aquilo em que se acredita de facto.
A cultura está na base da identidade e coesão comunitária, preserva e valoriza a memória colectiva, o património material e imaterial, cria sentido de pertença, fomenta a participação cidadã e diversas vertentes de diálogo, a começar pelo intergeracional. Complementa a educação formal através de bibliotecas, museus, teatro, cinema, exposições, concertos, experiências várias, espaços de produção criativa, oficinas artísticas, palestras, conversas, etc. Proporciona inclusão para jovens, para os mais velhos em risco de isolamento e para diversas condições vulneráveis. É factor de desenvolvimento local com impacto directo na economia. Atrai investimentos e gera empregos, potencia a diversidade nas actividades económicas e dá visibilidade ao concelho no contexto nacional e até internacional. Contribui para o bem-estar e qualidade de vida. Pode ter efeitos significativos na saúde mental e emocional. Fortalece os laços sociais. Pode funcionar como forte marca territorial.
Resumindo: Pensar na cultura como eixo estratégico de desenvolvimento é de facto estruturante. Serve a educação global, serve uma economia diferenciada, promove a tão desejada participação cidadã. É uma aposta forte num futuro melhor. Não é um capricho vaidoso. Não é um luxo!»

