Cantadeiras do Vale do Neiva e do Brasil reinterpretam histórias do ouro na Bahia

O Museu de Arte da Bahia, no Brasil, acolhe “O Círculo das Contas de Ouro em Filigrana: Conexões Históricas entre Bahia e Viana do Castelo”, performance inédita da artista portuguesa Rita GT, criada em colaboração com as Cantadeiras Ohùn Obìnrin, de Bahia, e as Cantadeiras do Vale do Neiva.

A performance propõe uma reflexão crítica sobre as circulações do ouro no contexto colonial e as suas implicações económicas, simbólicas e corporais, com especial incidência sobre as mulheres nos dois lados do Atlântico.

Partindo do encontro entre mulheres ⎯ das suas vozes e corpos em relação — o projeto convoca-as como protagonistas ativas de memória, transmissão e resistência, recusando narrativas que as reduzem a figuras meramente ilustrativas da história“, explica Rita GT.

Em cena, o grupo minhoto de cantares e saberes tradicionais Cantadeiras do Vale do Neiva — cuja ida à Bahia foi viabilizada através de uma iniciativa comunitária de financiamento coletivo — encontra-se com as Cantadeiras Ohùn Obìnrin, grupo de mulheres guardiãs de tradições orais afro-brasileiras.

O projeto estabelece “um diálogo entre a filigrana minhota e as joias de crioula da Bahia, entendidas não como simples adornos, mas como matérias políticas“.

A delicadeza formal da filigrana condensa a violência histórica da extração do ouro e a sofisticação técnica que sustentou economias coloniais. O corpo que a sustenta torna-se território de inscrição histórica, expondo as relações entre valor, poder e género“, acrescenta.

Num momento em que o ouro volta a afirmar-se como reserva de valor e refúgio financeiro, a performance reinscreve-o criticamente no presente, revelando como o valor continua a ser extraído à custa de corpos e territórios. O ornamento deixa de dourar uma história única para a expor como campo plural, fluido e enriquecido por múltiplas vozes“, refere ainda Rita GT.

A investigação artística e histórica que estrutura o projeto foi desenvolvida ao longo de mais de dois anos entre Portugal e o Brasil, articulando arte contemporânea, tradições orais e práticas performativas coletivas.

A performance foi consolidada e produzida no contexto da residência artística de Rita GT no Instituto Sacatar, na Ilha de Itaparica, onde o projeto foi selecionado.

Integrada no programa O Vila Ocupa o MAB, esta apresentação reforça a colaboração entre o Teatro Vila Velha e o Museu de Arte da Bahia, afirmando-se como um gesto artístico de reconhecimento histórico, reparação simbólica e projeção futura.

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