André Caetano: “Os monos da Bola”

Artigo de opinião de André Caetano, advogado em Viana do Castelo.

«O quão simples seria catalogar, se o título procedesse do castelhano? Tudo a seu tempo. A verdade é que “o mundo da bola” gira em torno da controvérsia e, por vezes, se intercala com estórias de “feel good” que o leigo gosta de categorizar como “muito mais que um jogo!”. Mas vamos por partes. Quando foi a última vez, caro leitor, que se deslocou a um recinto desportivo com o fim de ver um jogo de futebol? Agora que o primeiro exercício se cumpriu com sucesso, partimos para algo mais complexo: quando foi a última vez que se deslocou a um recinto desportivo com o fim de ver um jogo de futebol, e não ouviu qualquer tipo de insulto?

Desde a clássica “brincadeira” até à suposição sobre a profissão da progenitora do árbitro, será certamente um exercício que, a existir recordação que satisfaça a questão, terá que ser repescada após alguns minutos de cogitação. De onde provém esta ânsia de libertação de emoções, que insiste no atropelamento do senso comum? Porque é que, exceptuando os casos em que a violência se materializa, somos ambos autores e cúmplices, enquanto sociedade? E, por vezes, mesmo para esses casos, conseguimos assumir a pele de um contorcionista procurar justificar o inaceitável!

Qual Civitas Diaboli que nos persegue e nos expurga de culpas, legitima que nos façamos assemelhar aos símios mas, ironicamente, sejamos “nós” a procurar essa semelhança na pele alheia…

Parte I: “Génesis” – A formação.

O bom senso não se ensina em estabelecimentos de ensino, não se consegue com canudos, não se espera de miúdos quando se tratam de assuntos de graúdos. Engraçado que se use o termo formação quando o problema se prende exatamente com a sua falta.

Hodiernamente, olha-se para os miúdos com ovos da páscoa, e os coelhos trazem símbolos de peso, que representam instituições com história, das quais quase todos sonhamos representar. Aqui, aponta-se já um mal: Se eu não dei, talvez o meu filho consiga, por isso tudo farei para tornar este sonho realidade, tudo mesmo! Mas quem sonha, este sonho? Quem o teve, ou quem o herda? Se sonhares o sonho de outrem, o que acontece aos teus próprios? Quem os alimenta? O que é que os alimenta?

Não bastante fosse o uso do descendente como instrumento da vontade frustrada, muitos (diversos) são os casos em que tal instrumentalização não supre “a constante e perpétua vontade de atribuir o seu, a seu dono”, pelo que se persiste a ânsia pela afirmação do ser, que se personifica uma vez mais, na distribuição de impropérios que, na sua maioria, volta a insistir em adivinhar a profissão de quem trouxe o árbitro ao mundo.

Quando é que o apoio e acompanhamento incondicionais dos rebentos se tornou desculpa para que a injúria esteja à distância de um espirro? Porque é que a cor do teu escudo me ofusca a vista? Seja pai, mãe, primo, tio, tia, avô, avó, por vezes até o cão ladra em direção do adversário, tudo em defesa da criança, claro, que saiu de casa com intuito de sentir a emoção do golo, e ouve, e vê, agora o familiar comportar-se de uma forma que nem da sua inimputabilidade se esperava, num misto de verborreia com café e cheirinho.

É expectável que se cresça bem, quando as referências nos conduzem por outros rumos? “Faz o que eu te digo, não faças o que eu faço”, disse um padre, ao meu pai, algures no tempo, se ao menos fosse assim tão simples, não é?

A verdade é que o desporto, o futebol em particular, parece que faz a maior parte de nós transpirar aquele suor que se esconde nas profundezas do ser, onde o “tipo pacato” se transforma, onde nem o mundo dos mais pequenos escapa à necessidade de vencer, inconsequência, irresponsabilidade, má formação, impertinência, e toda uma vasta gama de outras palavras menos simpáticas que se poderiam oferecer.

Não obstante, engane-se aquele que julga que a culpa morre apenas nos espectadores, já que parte do problema se alonga a intervenientes diretos, clubes, diretores, treinadores, que escolhem quem forma, ou devia, que escolham não formar, mas deviam! Objetivos pessoais VS dever, quem vence? Sou treinador, e quero chegar longe, pelo que vou seguir todos os atalhos ao meu alcance para atingir este fim. Estes, meus caros, nunca se vão aperceber que não chegaram sequer a sair do início, quando se virem perdidos a meio.

O que me choca não são os gritos ou calão, aquilo que os eruditos definirão como “mal criadagem”, porque normalmente são de vidro os telhados que os cobrem. Choca-me a supressão da personalidade, a busca pela adição de ativos – porque deixam de ser crianças – às suas fileiras, que esta concentração, é para ganhar ou ganhar! Exalto os formadores, os pedagogos, os que seguem um caminho retilíneo em direção aos seus objetivos, sem ter que atropelar princípios por um fim, conheço vários, todavia, são poucos num mundo que cheira a sangue a todos estes tubarões.

Parte II: “Contra tudo, e contra todos”.

À imagem do que sucede na política, o populismo gosta da bola como eu amo uma mulher: entranha-se na essência e com muita dificuldade se dissipa.

O futebol domina a imprensa, os média, as conversas de café, de mesa e, por vezes, o leito matrimonial, e quantas dessas vezes a carga que se coloca nas palavras é positiva? Por positiva entenda-se, verdadeiramente inspiradora e impactante, e não o “eu amo o meu clube até à morte” ou “clube é como a mulher, não se troca”. Ademais, bem sabemos que apesar deste amor ter olhos, na verdade, se demonstra cego, assim como a permuta de parceiros tende a verificar-se.

Hostiliza-se algo que deveria ser belo, vulgariza-se o sentido do termo competição, isto tudo em nome de quê, ou de quem? Não precisamos olhar para os grandes colossos mundiais, ou para os 3 estandartes nacionais, se pensarmos local, quantas vezes passamos os olhos em comunicados a condenar “veemente” todo e qualquer ato de violência, notícias sobre árbitros agredidos, cenas de pancadaria, insultos e afins? E a culpa, fica para tia, morre solteira, pelo menos nas mentes que persistem em justificar o injustificável. Ou foi o outro que começou, ou x estava a pedi-las, ou foi bem feito e deveria levar mais, e nunca, ou raramente, um “porque é que eu sou assim?”. O que é que tem que suceder para que se pense e repense esta forma de viver? É possível, sequer? Quem o fará, quando é tão bom viver o “ópio do povo”?

Gostava de oferecer uma solução, todavia, diz a experiência, e a histórica, que os ciclos se repetem, aliás, é inexequível sanar algo quando nem sequer se identifica a situação como um problema.

Voltando agora atenção para questões associadas ao racismo e xenofobia, que tão estruturadas estão que “agora tudo é racismo”, entristece-me que também o “desporto rei” se volte para o flanco direito, principalmente em tempos em que os extremos já não se usam… Aquele que justifica abusos raciais com o “ele é que provocou” é o mesmo que culpa a vítima de abusos pela roupa que veste, e o que diria o mestre, sobre este “ensaio sobre a cegueira”? Quanto pesa uma palavra? Quanto pesa um emblema? Será que pesa a consciência? Usualmente, o “eu até tenho amigos” supre – na cabeça de quem passeia dendrites fundidas – qualquer tipo de cogitação ou questionamento que se possa colocar, se calhar por isso vamos vendo a nossa Assembleia tomada pelos sofistas do oportunismos, intérpretes e tradutores da “vox populi“, que me leva sempre a pensar: que povo somos então, e onde é que nos perdemos? Sejamos melhores!

Parte III: Os “monos” da bola.

Ficam então de fora os “monos”, letárgicos seres, que foram à bola para, imagine-se, ver um jogo, um embate entre equipas com o propósito de, a final, almejar que o emblema e/ou pessoa(s) que apoiam vá vencendo, quando der. Perdidos na premissa estabelecida no refrão do Oliver & Benji, sem iniciativa para encetar discussões, confusões, alusões a temas que transcendam a bola. Fracos espécimes, portanto, que nascem condenados a saber o seu lugar, chutados para canto, na hierarquia, nunca serão um golo de antologia, pedantes rotulados que cortaram as próprias pernas.

No mundo do oito e do oitenta, sejamos monos e não macacos, porque não é a cor da pele que aproxima o humano do primata, muito menos a “selva” onde nasceu, é fundamentalmente uma questão de comportamento, estimado leitor, e se você não diz, pois então, digo-o eu!»

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