Artigo de opinião de Ana Azevedo, do Bloco de Esquerda.
«Sou mãe de duas crianças, talvez por isso obrigo-me a olhar para o futuro com mais atenção do que por vezes me é confortável. Todos os anos em abril lhes falo de liberdade, do que foi conquistado, do que mudou e do que nunca mais queremos repetir. Quero manter vivo neles o quanto o meu pai sonhou, acreditou e lutou para hoje podermos fazer e dizer o que nos vai no coração.
Este ano, porém, não falarei de liberdades conquistadas, chegou o momento em que tenho de lhes falar de outra coisa. Uma coisa realmente importante. Falarei de como se perde a liberdade. Terei de lhes explicar que não se perde de repente, que não haverá avisos e que não haverá um dia em que tudo muda. Terão de ser vigilantes, pois a liberdade perde-se devagar, com silêncios, com decisões e escolhas que parecem banais
E então pensei, como seria o ABC sobre perder a liberdade? Como seria se o colocasse num manual? Provavelmente seria assim:
“O ABC de como perder a liberdade”
A – Acredita que isso nunca te vai acontecer
Aqui não. Agora não. Isso é coisa de outros.
B – Banaliza tudo
Factos, opiniões, mentiras. Tudo ao mesmo nível, nada pesa, nada se confirma.
C – Cansa-te de pensar
Reagir é mais rápido. Dá menos trabalho.
D – Deixa de dizer o que pensas
Não vale a pena. Vai dar chatice.
E – Encaixa
Discordar cansa. Pertencer é mais fácil.
F – Faz de conta que não é contigo
Há sempre alguém mais responsável ou que se preocupa mais.
G – Gosta, partilha, comenta
E chama a isso participação ativa.
H – Habitua-te
Ao ruído. À pressão. Ao ódio constante.
I – Ignora os sinais
Nada mudou assim tanto.
J – Justifica tudo
“Também não é assim tão grave.”
L – Limita-te ao que já concordas
O resto incomoda.
M – Mede tudo pela reação dos outros
Se agrada a muitos é porque está certo.
N – Normaliza
Com o tempo, tudo parece aceitável.
O – Opina sem saber
Mas sempre com muita certeza.
P – Prefere conforto à verdade
A verdade exige mais de ti
Q – Questiona menos
Não compensa e podes não ser aceite.
R – Repete
Parece pensamento.
S – Silencia-te
É mais seguro.
T – Torna tudo superficial
Nada merece aprofundamento.
U – Usa o humor para desvalorizar
Assim nada é sério.
V – Vive para não incomodar
Liberdade com limites invisíveis.
X – “Xinga” quem discorda
Substitui argumento por ataque, assim enervas e fazes-te ouvir.
Z – Zero reação
Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou. Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade já não é bem aquilo que era.
Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás.
O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida.
Celebramos abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças.
Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.»

