Artigo de opinião de Marta Von Fridden, da Iniciativa Liberal.
«Saleh Mohammadi, Mehdi Ghasemi, Saeed Davodi, Sasan Azadyar Junaqani, Erfan Kiani, Amirali Miriafari, Ali Fahim, Shahin Vahedparast, Mohammad Amin Biglari, Amirhossein Hatami — alguns não tinham ainda 20 anos, outros não chegaram aos 30, mas todos têm algo em comum: foram executados pela República Islâmica do Irão na sequência das manifestações de janeiro de 2026 que, voltaram a expor a brutalidade de um regime sanguinário que sobrevive pelo medo.
E estes são apenas alguns dos nomes que conhecemos citados por fontes como a Amnistia Internacional, BBC ou a Euronews, porque se olharmos para os dados da própria comunidade iraniana na diáspora, os números são ainda mais brutais e apontam para que 540 pessoas já tenham sido executadas só este ano.
Mas há outros — muitos outros — que continuam no corredor da morte. Jovens, na sua maioria julgados à porta fechada e condenados com base em acusações vagas e muitas vezes sustentadas por confissões arrancadas sob coação e violência. Nomes que dificilmente chegarão até nós antes de desaparecerem, mas todos eles marcam a resistência iraniana e mostram como até os mais jovens se fartaram de viver em opressão.
Meses depois do ataque conjunto entre Estados Unidos da América e Israel, que resultou na morte de Ali Khamenei, continua sem se vislumbrar uma solução clara para o Irão. Houve um momento — breve, quase ilusório — em que pareceu possível acreditar que algo podia mudar. Que a pressão nas ruas, que a coragem de milhares de iranianos, que a exposição internacional, poderiam abrir uma brecha num sistema fechado há décadas.
Hoje, o que resta é incerteza. Uma incerteza alimentada, desde logo, pela dificuldade de acesso à informação. O que sabemos chega de forma fragmentada e os jornalistas não se atrevem a fazer uma cobertura séria sobre a realidade actual do Irão, e tantas vezes a informação chega mesmo tarde demais.
Sabemos que houve protestos. Sabemos que o regime impôs um blackout ao próprio país (exactamente para que não fosse possível sair informação). Sabemos que foram reprimidas e mortas milhares de pessoas nas ruas – estimam-se cerca de 30.000 a 40.000 mortos. E, sabemos que há detenções em massa e execuções. Mas não sabemos a dimensão real. E aquilo que não sabemos é, provavelmente, ainda mais perturbador.
A própria Amnistia Internacional, num dos seus artigos mais recentes, dá nota de que este poderá ser mesmo o ano com maior número de execuções no Irão.
Enquanto o mundo se distrai com os tweets de Donald Trump, o regime iraniano faz o que sempre fez: ganha tempo e impõe silêncio. Execuções públicas, julgamentos sumários, acusações como “inimizade contra Deus” transformadas em sentença de morte. Não se trata apenas de punir — trata-se de mostrar. De criar medo. De esmagar qualquer tentativa de organização.
E resulta. E resulta (também) porque há uma incapacidade, fruto de décadas de opressão, de ser criada uma verdadeira oposição interna no Irão que permita uma transição de poder.
Já do lado de fora, o ruído é outro. Israel mantém o foco nos seus inimigos regionais, do Hamas ao Hezbollah. Os Estados Unidos oscilam entre pressão e hesitação, incapazes de definir uma estratégia consistente, com consequência económicas no mundo e que o regime aproveita como forma de descredibilizar os ataques ao país. Os opositores do regime iraniano, exilados na diáspora, como Reza Pahlavi permanecem na “sombra”, apesar dos múltiplos esforços para que os media tradicionais coloquem a sua pressão numa perspectiva de mudança de governo. E a União Europeia refugia se numa prudência que, vista de Teerão, soa a ausência.
Este desalinhamento interessa ao regime. Quanto mais dispersa estiver a atenção internacional, maior é o espaço para agir sem consequências. Quanto menos escrutínio existir, mais fácil é perpetuar com o regime teocrático.
E é isso que está a acontecer.
Entretanto, pelas capitais europeias, a diáspora iraniana continua a fazer aquilo que pode. Em Lisboa, como em tantas outras cidades, saem à rua, levantam cartazes, repetem os nomes de todos aqueles que corajosamente deram a vida pela Liberdade, pedem atenção. Pedem visibilidade. Pedem um Estado Democrático no Irão. No fundo, um Irão aberto ao mundo e que dignifique a herança histórica da cultura persa.
Mas, infelizmente, esquecemos… Estamos mais atentos às declarações de Donald Trump, aos ciclos mediáticos rápidos, às polémicas do dia-a-dia, do que à realidade lenta e brutal de um povo que há décadas luta pelo básico: Liberdade, Dignidade e Futuro.
E eu confesso: este silêncio incomoda.
Porque obriga a um exercício simples — imaginar-nos do outro lado. Imaginar o que é viver num país onde sair à rua pode ser uma sentença, onde falar pode custar a vida, onde a esperança aparece em flashes curtos e desaparece rapidamente.»

