André Caetano e Hugo Soares: “Os limites do humor”

Artigo de opinião de André Caetano e Hugo Soares.

«Voltamos à carga com uma única questão a responder: Quais os limites do humor? Por questões práticas, logísticas e sobretudo pelo formato destas contribuições, optou-se por circunscrever a questão que dá título ao artigo, ao contexto do Stand-up Comedy.

Pessoalmente, considero que não há nada sobre o qual não possamos brincar, fazer piadas, especialmente quando transportamos esta questão para o contexto do Stand-up Comedy. Não obstante, a linha que separa “uma piada” de “uma piada de mau gosto” é, na minha ótica, o bom senso.

Todos somos capazes de compreender a diferença entre algo que é dito com o intuito de ofender a honra, difamar, de algo que se diz num paradigma humorístico. O busílis, está em discernir que gostos e opiniões são como o cu, toda a gente tem um. Por exemplo, se eu fizer uma piada sobre o aborto, não estou a tomar uma posição política ou social sobre o tema, estou a recorrer a uma premissa a utilizar num texto para um contexto específico, onde o elemento volitivo se aplica quer a quem profere, como a quem optou por, naquele dia e hora, se deslocar a x local para escutar uma ou mais pessoas verbalizar uma rotina que não tem que refletir qualquer juízo de valor ou opinião, não tem que se transformar num ataque em redes sociais ou um processo judicial porque “é ofensivo contra cães, gatos, tartarugas, seja o que for”.

Se eu disser que não gosto nem acredito nos Anjos, estou a ofender os católicos ou a demonstrar que tenho bom gosto musical? Quiçá ambos …

Em vésperas de Abril, é preciso apontar que a liberdade de expressão é um privilégio que, por vezes, apenas se valoriza por conveniência, e o contrário também é tão ou mais verdade! Existem coisas bem maiores e mais importantes que o nosso ego, esta é sem dúvida uma delas!

Assim, generalizando (consciente de que existem casos com fundamento para análise aprofundada) coloco o Stand-up Comedy sob a égide da liberdade de expressão, classifico-o como uma arte e, como tudo a que a arte se refere, existem diferentes correntes, ínfimos artistas, públicos, etc., descartando assim a Difamação e Injúria, discriminação, entre outros, quando usados como meio de censura, e o fundamento para tais imputações se prenda com raciocínios que, quando aplicados ao Stand-up, tendem a ver a árvore, ignorando a floresta.

De uma forma geral também, não considero que faça qualquer sentido abordar o dolo eventual e/ou negligência consciente quando se fala de Stand up Comedy, já que o risco principal associada a esta arte, se prende com o facto de, eventualmente, o público gostar, ou não, da(s) piada(s) em questão, e o comediante aceita esse risco à partida, não sob uma perspetiva que decorre de uma eventual ofensa à honra e/ou ao bom nome, mas sobre a qualidade, ou falta dela, do material que oferece. É precisamente por isso é que, no mundo do humor, assim como em quase tudo na vida, existem hierarquias, que a “noite de comédia” começa com o Fulaninho do Open Mic e termina com o Cabeça de cartaz, que lhe deu nome, e o qual toda a gente se deslocou para assistir.

Ora, a este propósito, pareceu-me pertinente oferecer uma perspetiva de alguém com provas dadas no Stand-up Comedy, alguém que verdadeiramente caminha na ténue linha destes “limites”, que literalmente vem colocando Viana no mapa com o seu trabalho, por isso, estimado leitor, se está a piscar os olhos enquanto lê, pisque com mais força e receba as palavras do “nosso” Hugo Soares:

Não há limites no humor. Fim.

Ok… eu argumento:

Uma piada é uma tentativa de fazer rir. Não é um ataque. Não é um manifesto. Não é um decreto. Se a intenção fosse ofender, seria muito mais fácil. Uma piada dá trabalho. Um insulto não.

Por isso, quando se diz que uma piada “não devia existir”, convém perguntar: estamos realmente a falar de humor… ou de outra coisa qualquer?

Grande parte destas discussões não é, no fundo, sobre humor. É sobre temas proibidos. É sobre a ideia de que há assuntos que não podem ser abordados de forma humorística. Mas então surge a pergunta inevitável: porquê?

Pode fazer-se cinema sobre tragédias. Pode pintar-se sofrimento. Pode compor-se música sobre dor, guerra, morte e injustiça. Mas quando alguém faz uma piada sobre esses mesmos temas, de repente torna-se inaceitável?

Porquê essa excepção?

Dizer que um tema não pode ser usado numa piada é como dizer que um pintor não pode usar amarelo… porque há pessoas que não gostam de amarelo. A solução para quem não gosta de amarelo: come só as batatas… com casca para não veres o amarelo.

O mesmo se aplica ao humor.

Muitas vezes, o desconforto não está na piada em si, mas na reação que ela provoca: o riso.

Há quem ache que rir de certos temas é, por si só, um problema. Mas o riso não é uma aprovação moral. É uma reação humana, muitas vezes involuntária, frequentemente complexa.

Outro argumento comum é o da “responsabilidade social do comediante”. Mas aqui convém separar as coisas. Um comediante tem uma função muito clara: fazer rir. Se quiser ser ativista, ótimo e pode usar a comédia para isso. Mas isso é uma escolha. Não é uma obrigação.

Tal como um ativista pode usar humor para transmitir uma mensagem, um comediante pode usar temas sérios apenas para provocar riso. Uma coisa não invalida a outra. Mas também não se devem confundir.

E talvez o maior equívoco nesta discussão seja este: não saber distinguir entre uma ofensa disfarçada de piada e uma piada disfarçada de ofensa.

Uma é para chorar. A outra é para rir.

No fim de contas, o humor não precisa de limites impostos de fora. Ele regula-se sozinho: pelas reações do público, pelo contexto, pelo talento, ou falta dele, de quem o faz.

Porque no dia em que o humor tiver regras fixas deixa de ser humor.

Passa a ser batatas“.

Lidas as palavras do Hugo, resta-me apenas dizer duas coisas:

Para além do penteado, partilho também desta opinião;

Aproveitem também para passar pela página dele para estarem atentos aos novos espetáculos que aí vêm.»

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