Artigo de opinião de Marta Von Fridden, da Iniciativa Liberal.
«Durante muito tempo, acreditámos — talvez de forma ingénua — que as democracias liberais e os valores do mundo ocidental estavam plenamente consolidados. Parecia evidente que os princípios democráticos sobreviveriam por si só, sustentados pela sua importância intrínseca e pela adesão generalizada das sociedades.
Hoje, porém, sabemos que essa estabilidade não é garantida, assim como a Democracia Liberal não é uma ideia que se consiga eternizar.
Os pilares das democracias liberais revelam-se profundamente dependentes da realidade económica. A confiança dos cidadãos neste sistema não nasce apenas de convicções ideológicas, mas da experiência concreta: durante várias gerações, o mundo ocidental proporcionou um aumento significativo da qualidade de vida. O progresso económico foi visível, contínuo e, sobretudo, partilhado.
O elevador social funcionava, a ascensão social fazia-se sentir e o mundo ocidental acreditava na ideia que foi capaz de transformar o mundo. A economia crescia, criava oportunidades e alimentava a expectativa de um futuro melhor. Cada geração acreditava — com fundamento — que viveria mais e melhor do que a anterior.
Mas essa expectativa foi interrompida.
A geração atual é, em muitos casos, a primeira a enfrentar dificuldades reais em superar o nível de vida dos seus pais. A comparação é inevitável: à mesma idade, muitos dos nossos pais já tinham vidas estabilizadas, segurança financeira e a convicção de que os seus filhos alcançariam um futuro cada vez mais promissor através do estudo, da literacia e do trabalho.
Hoje, essa promessa parece cada vez mais distante…
E esta inversão de expectativas não é apenas um problema económico. É um problema político e social profundo que está na base do crescimento de fenómenos populistas e da erosão da confiança nos valores fundamentais das democracias liberais.
Quando o sistema deixa de cumprir a sua promessa implícita de progresso, torna-se mais vulnerável a narrativas simplistas e polarizadoras.
O populismo, seja de esquerda ou de direita, sempre explorou a insatisfação económica: ora através da demonização dos mais ricos, alimentado pela lógica da luta de classes, ora através da culpabilização de estrangeiros, transformados em bodes expiatórios para a perda de qualidade de vida.
Ambas as narrativas assentam no mesmo terreno fértil: a frustração, e falta de esperança num futuro melhor.
É por isso que a política económica não pode ser vista apenas como uma questão técnica. Tem uma dimensão estrutural na preservação da própria democracia. Garantir crescimento, mobilidade social e oportunidades reais não é apenas uma prioridade económica alimentada por uma qualquer vaidade — é uma condição essencial para a estabilidade política e para a sobrevivência dos valores do Mundo Livre.
Hoje, mais do que nunca, os governos carregam uma responsabilidade acrescida. Não se trata apenas de gerir indicadores macroeconómicos, mas, fundamentalmente de assegurar que o sistema continua a merecer a confiança dos cidadãos.
Porque, no final, as democracias liberais não sobrevivem apenas dos seus princípios idílicos — sobrevivem do seu impacto e da capacidade de transformar a vida das pessoas.»

