Artigo de opinião de Diogo Amorim, Engenheiro Informático & Responsável de Marketing na CLS Brands.
«Uma ode saudosa e ligeiramente apavorada de quem apanhou o comboio errado, ou o mais rápido de todos.
Havia um ritual sagrado na nossa infância. Antes de ver um filme, havia que rebobinar a cassete. Era um ato de fé: premias o botão, ouvias o motor trabalhar, e esperavas. Ninguém questionava porquê. Era assim. Hoje, qualquer criança olharia para aquela caixa plástica com a mesma expressão com que nós olhávamos para os nossos avós a tentar ligar a televisão. Pura arqueologia doméstica.
Nós, filhos dos anos 90, temos o privilégio duvidoso de ter vivido mais eras tecnológicas do que qualquer geração antes de nós. Não foi um upgrade. Foi uma série de explosões controladas, cada uma mais barulhenta que a anterior, e nós ali no meio, a tentar não perder o fio da meada, ou o fio do carregador, que nunca é o mesmo de um ano para o outro.
Aquele Windows XP era uma promessa de civilização. O fundo de ecrã com a colina verde e o céu azul, não era coincidência, era o paraíso digital. As músicas de arranque e encerramento duravam exatamente 3,5 segundos. Hoje gastamos 3,5 segundos a rejeitar notificações de apps que nem sabemos como instalámos.
Pensávamos que já tínhamos chegado. Que o comboio ia abrandar. Que podíamos sentar-nos e desfrutar da paisagem.
E depois? Depois a internet invadiu os lares como água pelo ralo. Lenta no início, aquele dial-up que soava a um fax a ter um colapso nervoso, e depois de repente estava em todo o lado. Os telemóveis deixaram de ser tijolos para fazer chamadas e tornaram-se extensões da nossa identidade. As redes sociais chegaram e transformaram a nossa necessidade de aprovação social num produto embalado a vácuo e vendido a anunciantes.
Lá para meados dos anos 2020, porém, instalou-se uma estranha sensação de plateau. Os telemóveis eram mais ou menos iguais de ano para ano. Os computadores tinham chegado a um ponto em que fazer mais rápido já não fazia grande diferença na vida de ninguém. Chegámos mesmo a pensar, ingénuos que éramos, que o pior já tinha passado. Que podíamos aprender as regras e jogar o jogo.
E então, 2022. O ChatGPT. Aquele momento em que a inteligência artificial, que até ali era coisa de filmes e de conferências a que não éramos convidados, bateu à porta da casa de toda a gente e disse: “Olá. Posso entrar? Na verdade já entrei.”
Desde então a evolução tem sido tão caótica e constante que até quem trabalha na área anda com cara de quem perdeu as chaves de casa mas ainda não se lembrou. Áudio gerado por IA. Vídeo gerado por IA. Imagens, código, textos jurídicos, receitas de bolo, declarações de amor, tudo gerado, tudo possível, tudo questionável.
Quando os maiores canais do país precisam de rubricas semanais para dizer o que é real… já não é um problema de literacia. É um problema de realidade.
Vivemos tempos fantásticos para os amantes da tecnologia e tempos profundamente perturbadores para quem ainda acredita que uma fotografia é prova de alguma coisa. Quando os próprios estados soberanos não conseguem distinguir imagens de guerra reais de imagens geradas por inteligência artificial, entramos num território novo. Não é ficção científica. É a terça-feira passada.
Nós que rebobinámos cassetes, formatámos computadores com discos e pens, e aprendemos a usar a internet de livro em papel, somos talvez a última geração com memória de antes. Antes de tudo ser instantâneo. Antes de tudo ser gerável. Antes de não sabermos o que é real.
O comboio não abrandou. Nunca abrandou. E nós ainda cá estamos, agarrados à barra, a olhar pela janela para uma paisagem que muda depressa demais para ter nome.»

