Marta Von Fridden: “O Silêncio (contínuo) do Ocidente”

Artigo de opinião de Marta Von Fridden, da Iniciativa Liberal.

«Continuamos a nossa crónica pelo mundo e desta vez parámos no Afeganistão.

É já do conhecimento geral que o Islão, na sua versão mais radical e fundamentalista, olha para a mulher como um ser inferior, cuja utilidade se resume a servir o marido ou os homens da família.

Muito se pode escrever sobre como o Afeganistão chegou até aqui. Existirão, com toda a certeza, visões diferentes. Mas há um facto incontornável: desde a saída dos Estados Unidos da América do território afegão e o regresso ao poder do regime Talibã, os direitos humanos – com especial incidência sobre mulheres e crianças – caíram vertiginosamente.

As alterações recentes ao enquadramento legal demonstram como é possível entrar numa espiral de degradação, humilhação e subjugação, sem precedentes, sempre que falamos de fundamentalismo — neste caso, religioso.

Desde janeiro, já depois de sucessivos retrocessos nos direitos das mulheres – o direito a cantar, a falar em público e a frequentar o ensino secundário e universitário – assistimos agora à institucionalização de um sistema onde a violência e a opressão são normalizadas. Desde que não partam ossos, os homens têm legitimidade para praticar actos de violência doméstica, sem que haja qualquer condenação.

As notícias que (ainda) nos chegam são exasperantes. As mulheres, quando conseguem falar, perguntam-se porque razão esse tal “deus” as odiaria tanto ao ponto de as condenar a tamanho castigo. E compreende-se o desespero: vivendo numa sociedade que as reprime sistematicamente em nome de uma interpretação religiosa extrema, a sensação é de abandono absoluto.

Mulheres que choram enquanto olham para os animais na rua e percebem que qualquer animal tem mais liberdade do que elas. Mulheres isoladas, cuja única esperança (a existir) é que alguém no Ocidente, ainda bastião dos direitos humanos, as ouça e consiga agir.

E foi exactamente isso que fizemos na Iniciativa Liberal. Dentro da pressão que podemos exercer — e sabemos que é pouca — levámos à Assembleia da República um voto de condenação deste regime opressor, que cospe nos valores que para nós são absolutamente fundamentais: dignidade humana, liberdade individual e o direito a uma vida feliz.

As linhas que a comunicação social dedicou a isto? Quase nenhumas.

Mas é a mesma imprensa que ainda há dias relatava, horas a fio e em loop, um caso de violência doméstica em Portugal, gerando enorme indignação pública.

E a sociedade reagiu. Filosofou e escreveu milhares de linhas na imprensa escrita, podcasts, produziu comentários inflamados nas redes sociais, defendendo dignidade nas vítimas de violência e denunciou ferozmente a existência de uma sociedade patriarcal.

E sobre o Afeganistão? Silêncio…

Tanta indignação, mas começa a tornar-se evidente que é uma indignação selectiva — ou pelo menos dependente do enquadramento dominante.

Não obstante, como tem sido tradição em matérias semelhantes, a comunicação social noticiou pouco e uma parte significativa desses “activistas” ignorou, brutalmente e de forma cobarde, o sofrimento destas mulheres.

Talvez porque não encaixe no padrão habitual de virtuosismo. Talvez porque admitir esta realidade obrigue a questionar narrativas confortáveis. Há muitas hipóteses. Mas há uma certeza: a sociedade reage de forma diferente e os silêncios tornaram-se ensurdecedores.

Tal como em muitos outros sítios onde se instalaram ditaduras, tudo começa com uma moral imposta que a sociedade aceita pacificamente. Depois sucumbem os direitos humanos, os direitos políticos e, com eles, a Liberdade.

Foi também por coerência com estes princípios que a Iniciativa Liberal votou favoravelmente à proibição da burka. Não há pior sinal que possamos dar a quem olha para a velha Europa como continente de valores humanistas do que legitimar um símbolo que, em tantos contextos, representa a negação da autonomia feminina e o desprezo máximo pelas mulheres.

Demos um sinal claro de que não aceitamos fundamentalismos teocráticos que colocam em causa a livre expressão de um ser humano. Porque aqui, na velha Europa, queremos que continuem a imperar os valores humanistas e da liberdade e, por isso, não damos margem para qualquer avanço, por mais “minimalista” que pareça.

A liberdade não é cultural, é, por sua vez, um valor humano. E abdicar dela, em qualquer geografia, é sempre o primeiro passo para a perdermos também em casa.»

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