Inês Sincero: “Quem decide a nossa vida, nunca apanha o nosso autocarro”

Artigo de opinião de Inês Sincero, do Bloco de Esquerda.

«Durante os últimos meses, os autocarros da TuViana andaram de porta aberta e carteira fechada. Gratuitidade temporária, dizem. Promoção, experiência, incentivo. Chamem-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe um belo de ensaio geral para uma cidade verdadeiramente inteligente.

Em Viana do Castelo, temos uma relação curiosa com o automóvel: amamo-lo como se fosse membro da família e estacionamo-lo como se o espaço público fosse uma extensão da garagem lá de casa. O problema é que a cidade não estica e as ruas do centro histórico não alargam. E, ainda assim, continuamos a fingir surpresa cada vez que não há estacionamento. Talvez a pergunta não seja onde vamos pôr os carros, mas porque é que continuamos a precisar de tantos carros para fazer distâncias que cabem numa conversa de autocarro? Transportes públicos gratuitos são mais do que uma benesse simpática. São uma declaração política. Provam que a mobilidade pode ser pensada como um direito e não apenas como um serviço.

Mas, sejamos honestos: quando foi a última vez que muitos de nós apanhámos o autocarro? Sabemos os horários? Os novos horários? Conhecemos as rotas? As novas rotas? Ou guardamos na memória um mapa antigo, com circuitos que já não respondem às necessidades de quem trabalha por turnos e de quem vive fora do centro? Uma rede de transportes públicos não é uma peça de museu. É organismo vivo. Exige atualização constante, escuta ativa e diálogo com os utilizadores. E, de facto, isso estava a acontecer, com a TuViana. Estava num tão bom caminho e, agora, perdeu a sua mais importante característica. Por que motivo a sua gratuitidade não pode ser permanente? É como avaliar um exame brilhante com uma negativa.

A esquerda tem insistido numa ideia simples: serviços públicos fortes tornam cidades mais justas. Transportes acessíveis reduzem desigualdades. Diminuem o trânsito, a poluição, a ansiedade. Libertam espaço urbano para pessoas. Já para não falar das ideias… essas, que não se contabilizam nos relatórios municipais. Quantas ideias nascem num banco de autocarro? Quantas conversas improváveis começam entre paragens? Desde 2018, quando Viana se tornou a nova cidade-casa do meu coração, já perdi a conta da quantidade de livros que li, textos que escrevi, guiões que decorei, ideias que rabisquei algures nos transportes públicos. Parece palermice mas, sentadinha no banco, o tempo fica suspenso. Há observação. Há humanidade. Um autocarro é um laboratório social em movimento. Num carro individual, somos cápsulas isoladas. Num autocarro, somos comunidade – mesmo que em silêncio.

O meu cartaz favorito na Manifestação Contra O Pacote Laboral, no Porto, dizia “quem decide a nossa vida, nunca apanha o nosso autocarro”. Achei graça a este cartaz. Embora não tenha piada nenhuma. É verdade verdadinha verdadeira. Lá em cima decidiram e cá em baixo saboreamos um bocadinho daquilo que devia ser eterno. Como se só tivéssemos direito a uma trinca da bola de Berlim.

Usemos os autocarros. Critiquemos o que não funciona – horários desajustados, percursos ilógicos, falhas de comunicação. Exijamos melhorias. Gritemos pela sua gratuitidade. Uma rede pública só evolui se for usada e reivindicada. E, no processo, talvez descubramos que a viagem não é apenas deslocação. É espaço político. É espaço criativo. É espaço comum. Nos últimos meses, Viana andou de boleia consigo própria. A partir de agora, veremos se tem coragem de continuar.»

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