Miguel Dias: “O golpe silencioso no bolso dos portugueses”

Artigo de opinião de Miguel Dias, do ADN.

«O carro, para muitos de nós, não é luxo, é necessidade. É o que nos leva ao trabalho, às compras, aos filhos, e muitas vezes ao hospital.

O Orçamento do Estado para 2026 vem com uma “novidade” que dói no depósito, o fim do desconto no Imposto Sobre Produtos Petrolíferos (ISP).

O Governo PSD/CDS de Luís Montenegro já admitiu que o desconto vai acabar.

Não de repente, claro, será “o mais gradual possível”, diz Montenegro.

Mas sejamos honestos. Gradual não é o mesmo que indolor. É apenas uma forma mais lenta de sentir o mesmo golpe.

Esta medida pode render mais de mil milhões de euros ao Estado. Mas esse dinheiro sai diretamente do nosso bolso, e em especial do bolso de quem vive fora dos grandes centros, onde o transporte público é uma miragem.

Desde 2022, o desconto no ISP ajudou a travar o impacto da guerra na Ucrânia e a subida dos combustíveis, reduzindo cerca de 13 cêntimos por litro.

Agora, sem ele, o preço vai subir e a vida vai encarecer, de novo.

O Conselho das Finanças Públicas calcula que o fim total do desconto, já em janeiro, poderia render 1.132 milhões de euros, incluindo o IVA.

O Governo diz que vai ser “faseado” e promete “proteger os preços”.

Mas como? Com subsídios pontuais? Com truques fiscais?

A verdade é que isto é mais um aumento de impostos disfarçado e num país onde 55% do PIB já vem de impostos, é difícil engolir essa desculpa.

Esta decisão é um erro estratégico e ético.

Estratégico, porque o Governo escolhe o caminho fácil, taxar o consumo, em vez de atacar o desperdício ou a evasão fiscal.

Ético, porque penaliza quem menos pode, ou seja, trabalhadores pendulares, famílias de classe média baixa, agricultores, entre outros.

Falam em “transição verde”?

Bonito no papel. Mas enquanto não houver alternativas reais de mobilidade sustentável, isso é só retórica para justificar mais cobranças.

Querem um exemplo? Uma simples viagem de Évora a Lisboa pode ficar 5 a 10 euros mais cara. Imaginem isso todos os dias…

O que devíamos estar a fazer é o oposto.

Porque não investir os mil milhões em transportes públicos decentes?

Porque não criar incentivos reais para carros elétricos acessíveis?

Porque não fazer uma reforma fiscal justa, que taxe a riqueza acumulada e não o combustível que precisamos para trabalhar?

O OE2026 podia ser uma oportunidade para mudar o rumo. Mas, se continuar assim, será apenas mais um capítulo de um Estado que vive à custa dos contribuintes e que os explora até ao tutano.

Gradual ou não, este aumento vai-se sentir na bomba e, como espero eu, nas urnas.

Acreditem que o combustível da paciência dos portugueses está a acabar.»

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