Artigo de opinião de Marta Von Fridden, da Iniciativa Liberal.
«No nosso périplo pelo mundo, vale a pena fazer uma paragem na nossa vizinha Espanha. Não apenas pela proximidade geográfica, mas porque aquilo que hoje acontece em Madrid deveria merecer uma atenção muito maior de quem, durante anos, vendeu Pedro Sánchez como o rosto moderno, democrático e virtuoso da esquerda europeia.
Os acontecimentos das últimas semanas vieram expor uma realidade que muitos preferiram ignorar, relativizar ou simplesmente esconder debaixo do tapete. A entrada das autoridades nas instalações do PSOE para recolha de documentação relacionada com investigações que procuraram desmontar um esquema de alegadas pressões sobre o sistema judicial, de forma a ilibar membros próximos de Sánchez ou do próprio Governo, não é um episódio menor.
Muito menos quando surge num contexto em que se acumulam suspeitas, inquéritos e polémicas que envolvem figuras centrais do universo socialista espanhol e até familiares de Pedro Sánchez, como a sua esposa e o seu irmão.
Importa sublinhar, ainda assim, que em democracia todos beneficiam da presunção de inocência. Mas quando as suspeitas se adensam, nomeadamente sobre sucessivos esquemas de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e favorecimento em negócios com o Estado, envolvendo várias figuras predominantes do PSOE, e que culminam na descoberta de joias no cofre do gabinete de José Luis Rodríguez Zapatero, antigo primeiro-ministro espanhol e padrinho político de Sánchez, os alarmes começam a soar de uma forma diferente.
Em qualquer governo com sentido de Estado, Sánchez já teria colocado o seu lugar à disposição. Mas, ainda recentemente, em declarações aos órgãos de comunicação social, numa atitude presunçosa e desdenhosa, deu nota de que convocar eleições antecipadas não é útil para Espanha, principalmente num contexto de instabilidade internacional.
E aqui percebe-se, de forma clara — para aqueles que ainda tinham dúvidas — que Sánchez “adora” Trump. Aliás, precisa dele para sobreviver politicamente…
Durante demasiado tempo, a esquerda europeia construiu uma narrativa quase messiânica em torno de Pedro Sánchez. Um líder apresentado como bastião moral contra todos os males do populismo, da direita e do chamado extremismo. Porém, quando as suspeitas começam a aproximar-se do próprio poder, vale a pena questionar: não terá Pedro Sánchez construído toda uma persona, envolta em virtuosismo e moralidade, de forma a esconder os interesses que, alegadamente, visa proteger?
Se não, vejamos a forma como Sánchez liderou toda uma crítica a Trump aquando da operação na Venezuela que retirou Maduro do poder — um ditador sem respeito pela democracia, sem interesse em criar condições de prosperidade para o próprio país e com prisões cheias de presos políticos. Não ouvimos Sánchez condenar Maduro ao longo da sua presidência, mas vimo-lo condenar um ataque que criou uma oportunidade — não concretizada, em abono da verdade, talvez porque a Europa odeie mais Trump do que ame a própria democracia — para o país voltar a ter eleições livres.
Mas hoje conhecemos, fruto do caso Plus Ultra — que envolve o resgate de uma companhia aérea que, à época, tinha apenas quatro aviões, no valor de 53 milhões de euros e que o Governo liderado por Sánchez considerou “estratégica” — as ligações de Espanha ao regime venezuelano. E talvez por isso tenha sido fundamental criar um Sánchez pregador da resistência contra Trump.
Hoje sabemos que existem fortes ligações do PSOE à ditadura venezuelana, conhecemos a proximidade com a China — que também, nos últimos tempos, tem sido amplamente elogiada por parte da comunicação social pela sua alegada ponderação na gestão dos conflitos internacionais — e, um dia, também vamos descobrir as ligações ao Irão, que já foram levantadas por diversas vezes, nomeadamente através das suspeitas de financiamento ao Podemos, de Pablo Iglesias, mas que acabaram sempre arquivadas.
Talvez por isso tenha sido tão conveniente transformar Donald Trump no centro de todas as conversas. Não porque Trump não mereça críticas — merece muitas — mas porque se tornou o adversário perfeito para criar uma permanente cortina de fumo mediática. Até porque, enquanto todos olham para Washington, poucos prestam atenção ao que se passa verdadeiramente no centro do poder em Madrid.
Donald Trump acabou por se transformar no idiota útil de uma parte significativa do establishment político ocidental. A simples invocação do seu nome permite mobilizar emoções, criar trincheiras ideológicas e desviar atenções de problemas internos muito mais incómodos. É uma estratégia eficaz: enquanto o debate público é ocupado por batalhas culturais importadas dos Estados Unidos, as questões relacionadas com poder, influência, favorecimentos e responsabilidades políticas passam para segundo plano.
O mais curioso é que aqueles que mais falam em defesa da democracia parecem revelar uma crescente dificuldade em lidar com o escrutínio democrático quando este lhes bate à porta.
Embora Sánchez ainda não esteja formalmente acusado de nada, tudo à sua volta parece estar em acelerada erosão. E, por isso, mais do que nunca, Sánchez precisará da imprevisibilidade de Donald Trump para ter mais um balão de oxigénio, mais uma vénia de um Ocidente que escolheu fechar os olhos aos seus próprios valores fundacionais.
E em Espanha, o problema já não é apenas Sánchez. Os tentáculos de poder que vemos emergir das inúmeras investigações em curso revelam uma cultura de abuso de poder que mistura impunidade com laivos narcísicos, característica daqueles que tudo controlam e, por isso, nada temem.»

